Una experiencia, dos destinos
Durante siglos, la raya seca entre el Alto Támega y Galicia fue escenario de un comercio clandestino que sostuvo generaciones enteras. Café, aceite, tejidos, tabaco y ganado cruzaban la raya de noche, a hombros de hombres y mujeres que conocían cada piedra del camino. La Guardia Fiscal de un lado, los Carabineros del otro. Esta caminata devuelve a la memoria esos recorridos.
O que atravessava a raia
De Espanha para Portugal vinham sobretudo produtos escassos ou caros deste lado: café, açúcar, tecidos, penicilina, pneus e peças. De Portugal para Espanha seguiam azeite, sabão, bacalhau, estanho, volfrâmio e gado. O sentido do negócio invertia-se conforme o preço e a escassez de cada lado — e ambos os lados eram, à vez, credores e devedores.
Quem eram
Não eram criminosos de carreira. Eram lavradores, pastores, mulheres com filhos para criar. O contrabando era, para muitas famílias da raia, a diferença entre passar fome e não passar. Carregavam ao ombro fardos de 20, 30, por vezes 50 quilos, durante noites inteiras, por trilhos que apenas eles conheciam. Andavam de noite, sem luz, em silêncio, distanciados uns dos outros para que uma emboscada não apanhasse o grupo inteiro.
Quem os perseguia
Do lado português, a Guarda Fiscal, aquartelada em postos espalhados pela linha de fronteira — um deles ainda de pé em Vilarelho da Raia. Do lado espanhol, os Carabineros e mais tarde a Guardia Civil. Havia perseguições, tiros, prisões e apreensões. Mas havia também, com frequência, um entendimento tácito: muitos guardas eram filhos da mesma terra.
Vilarelho da Raia e Oimbra
Vilarelho da Raia, no concelho de Chaves, e Oimbra, na província de Ourense, ficam separadas por poucos quilómetros de mato, muros de pedra e marcos de fronteira. Durante séculos, esses quilómetros foram a mais movimentada das estradas — precisamente por não ser estrada nenhuma. As aldeias da freguesia — Cambedo da Raia, Vilarinho da Raia, Vila Meã da Raia — partilham a mesma história.
Em 1946, Cambedo da Raia foi palco de um dos episódios mais duros da raia, quando forças portuguesas e espanholas cercaram a aldeia à procura de guerrilheiros antifranquistas ali refugiados. A memória da fronteira não é só de café e azeite.
Porque recriamos
Esta caminhada nocturna não é uma prova desportiva. É um exercício de memória. Percorre-se de noite, em silêncio, com um fardo aos ombros, porque foi assim que se fez. Os «Guias» que abrem e fecham o grupo são, muitos deles, antigos contrabandistas ou seus descendentes. As recomendações «de carácter secreto» são dadas na hora, tal como sempre foram.